11 de Abril de 2011

A INCÓGNITA

Passo a passo eu vejo
O caminho que é meu guia,
Preso entre as pontes da
Filosofia.

Paro e aguardo o ponto
Em que a vida seguiria,
Nado nos complexos, sem sentido,
Que me gritam:

Já não sou quem eu era
Já não sou quem eu serei
Sou o nada e nada espero
da existência de outrem.

Na arte, a alma emerge,
E o corpo desvanece.


por: João Maia e Alex Vaz

19 de Março de 2011

De Luís de Camões:

"Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim co’a alma minha se conforma,

está no pensamento como idéia;
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como matéria simples busca a forma."

14 de Março de 2011

Escrita Automática #2

Tudo me fascina.

Aceitando isto, só este corpo envolto em ligaduras me detém.

1 de Março de 2011

stepping through my shadow, coming out the other side.

O que entrou há de sair.

("The shadow is the part of ourselves that we want to hide, that we repress and don't want to see. Carl Jung emphasized the importance of being aware of shadow material and incorporating it into conscious awareness, in order to avoid projecting shadow qualities on others.")

Certas informações só interessam quando as personalizamos. Só sentimos necessidade de nos melhorar quando notamos o desnecessário em nós, quando não vale mais a pena ignorar a sombra. Ou melhor, quando ganhamos a coragem de a olhar de frente. Podemos viver com ela escondida o resto da vida. Não seria nada difícil. Seria até bem cómodo, bem mais prático, bem menos trabalhoso.

mas o que entrou há de sair.

O que é que entrou? Tapam-se os buracos da personalidade, fecham-se feridas ao colocar fantasias por cima. Fazemos dos outros espelhos de nós mesmos, e todo o mundo passa a ser um constante reflexo distorcido, fruto de ilusões pessoais.

Tal como Sua Santidade do Tibete diz, a única conquista necessária é a do "eu".
Querer saber o que escondemos de nós mesmos é o derradeiro sinal de sanidade. É também um aproximar vertiginoso à nossa insanidade.

27 de Fevereiro de 2011

AMARRAS SEM AMARRAS

Amarras sem amarras
Não te vês a ti
Sentes, sem sentido,
O tempo perdido


Amarras sem amarras
Não te sentes a ti
Amarras sem amarras


Estás aqui para ver
Como todo o teu ser
Se atrapalha por si


Se a tua mente fosse uma casa
A quem abrias a porta?


Estás aqui para ver
Como todo o teu ser
Depende de ti.
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26 de Fevereiro de 2011

Escrita Automática #1

As ruas de Lisboa dizem-me mais do que tu alguma vez me disseste. Cospe esse líquido feio que sai da tua boca, que eu tento-me baixar e esquivar e matar tudo o que restar. Não tenho grande pressa para nada, porque acho que nada tem pressa em vir ter comigo. Simplesmente é, simplesmente se sente qualquer coisa no ar que nos deixa a pensar "olha que bom que é não ligar a nada excepto aos sentidos!".
As teclas fazem barulho quando escrevo nelas, tal como o gato faz um suave ruído a andar, tal como oiço os carros lá fora e pouco mais. Pouco mais que, se parar, acaba por ser muito. Um inconsciente colectivo que tudo une, tudo une, tudo une com fios vermelhos bem mais bonitos do que eu achava, mas que por vezes parecem tão frágeis...
Todo o silêncio amontoado neste mundo (tão agradável que pode ser!) diz mais que todo o ruído que ouvimos. O silêncio diz tanto, o ruído só confunde. Desafio-me a calar, a parar, a escutar, a amar e andar pelas ruas, de manhã, de tarde e de noite, não porque procuro algo, mas porque assim me encontro.

21 de Fevereiro de 2011

PERSONA

E ir esticando
Até chegar a todos
E colando caras
Até só sobrar...

...Não quero mais saber
Do que tu desejas de mim

Fui-me esticando
Não chego a todos
Fui-me partindo
Em mil estilhaços...

...Não quero mais saber
Do que tu ouves de mim

Quantos mais pedaços
Pior o reflexo...

...Não quero mais saber
Do que tu pensas de mim

Já não há um grande espaço
Entre o que eu sou e o que eu faço.

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